10/10/2009
Red Bull chama Brasil de “droga”? Ninguém entende piada aqui, né?
Vimos hoje que a imprensa brasileira deu, por vários portais (R7, Globo Esporte, UOL) a mesmíssima notícia: Red Bull compara o Brasil a uma “droga” e cria guia de sobrevivência para São Paulo. Era a reprodução e repercussão de um texto que saiu no site da Red Bull Racing. Lá tem ótimas tiradas com o cotidiano da cidade em época de corrida. Por exemplo, responder não para perguntas como “Este Rolex é verdadeiro?”, “Devo parar nos sinais vermelhos?” e “Já considerou a possibilidade de viver com apenas um rim?”.
Sensacional. Nada longe das tiradas que a Red Bull sempre fez no seu boletim pré-corrida, que hoje nem faz mais isso porque cobre mais esportes do que a F-1, mas em seu auge detonava e tirava sarro de tudo e todos. Pilotos, dirigentes, pistas… nada era perdoado por eles. Nem cidades.
Aí, com essa repercussão aqui no Brasil numa época em que os portais são obrigados a falar de Fórmula 1, muitas pessoas ficaram ofendidas com as piadas. Uma pessoa (que, claro, nunca se identifica) criou um blog para capitanear um suposto boicote contra a Red Bull e nunca mais comprar o energético. Diz o sujeito no blog:
Escrevo em nome dos milhões de jovens brasileiros que compravam o energético Red Bull aqui no Brasil.
Depois de todas merdas que vocês publicaram no site da equipe, começamos uma campanha para não consumir mais essa porcaria que vocês vendem como energético em nosso país.
Afinal de contas, se vocês pensam tudo isso sobre nós brasileiros, é claro que nós também não queremos comprar o produtos que vocês vendem, seus gringos filhos da puta.
Até a Rosana Hermann, jornalista bem informada (e minha paraninfa de faculdade) twittou a matéria do R7 e, com sua influência, desencadeou uma onda de retweets contra a Red Bull.
Isso, claro, fora os comentários em outras redes sociais.
É claro que o cidadão acima e a Rosana, com certeza, não acompanham Fórmula 1 e nem conhecem o sarcasmo natural da equipe editorial da Red Bull Racing, que nos diverte há tanto tempo. Mas com uma chamada daquela nos portais, lá foram eles se manifestar. E corre o risco deles conseguirem provocar algo, já que muita gente desavisada entra na festa de gaiato.
Eu considero isso como desinformação por parte da imprensa. Tem também um pouco de sede por polêmica. Claro, eu também já fiz isso e todo mundo erra. Mas gente escolada no meio devia ter pelo menos pesquisado algo antes. A Red Bull sempre tratou, editorialmente, o mundo da F-1 com sarcasmo. Toda semana que antecede os GPs é assim. E não foi uma crítica séria. É uma paródia. Do que realmente acontece em São Paulo na época de GP do Brasil. É até pior, como o aumento da prostituição e o trânsito infernal na região de Interlagos.
Creio que o que acontece agora é bem semelhante ao que aconteceu com aquele episódio dos Simpsons no qual os personagens viajam para o Rio de Janeiro, Gerou um incidente internacional. O Secretário de Turismo do Rio de Janeiro exigiu desculpas formais do criador da série, Matt Groening. Que foram feitas, muito a contragosto e sem entender bem. Pra vocês terem uma idéia de como eles encaram esse tipo de reação lá fora, o caso do episódio virou até tema de estudo na Universidade de Berkley para entender “qual a diferença entre sátira e paródia”. Não duvido que a Red Bull passe por coisa parecida.
A internet tem a capacidade de amplificar tudo que falamos. Um pingo d’água vira uma tempestade. E só aqui no Brasil temos esse tipo de reação quando falam mal da gente. Um ranço que vem da época da ditadura, quando pintaram o país de maravilhoso e nada se podia falar de mal dele. Se falasse mal, você era comunista. Simples assim. Brasileiro simplesmente não entende piada sobre si próprio. Fica aquela coisa de “país tropical abençoado por Deus” para encobrir a nossa hipocrisia de não querer rir dos nossos próprios defeitos. Vamos relaxar, povo! Eu também quero um país melhor e mais justo para todos. Mas sem hipocrisia, please. Isso tudo aí acontece mesmo. É a impressão que vai lá pra fora. E não é de agora não, já que Interlagos recebe o GP do Brasil todo ano desde 1990. Só agora que vocês se preocuparam?
Se nós não somos capazes de reconhecer nossos problemas e enfrentá-los de cara limpa e sem vergonha perante nossos vizinhos, vamos reclamar do quê? Eles tem mais é que nos criticar mesmo. Tá tudo tão politicamente correto hoje que não se pode mais ter um pouco de auto-crítica e reflexão. Já imaginou o que será em 2016, quando americanos xingarem um sistema de transporte que não funciona? Vai ter caça à americanos na rua.
Preconceito, desinformação e rancor. Assim vamos longe.













































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