26/01/2009
Como será a F-1 sem Ron Dennis?
Ao ler a notícia de que Ron Dennis deixaria o comando da McLaren, logo me veio essa pergunta. Como será a F-1 sem Ron Dennis?
A F-1 foi fundada em 1950 e três anos antes, em 1947, nascia um menino na Inglaterra que tinha no seu destino uma história de vitórias, glória, mas também de perdas e frustrações. É o reconhecimentos tanto para o lado do bem quanto para o mal.
Um apaixonado por carros de corridas, Ron Dennis ingressou na F-1 no final da década de 60 como mecânico da equipe Brabham. Nessa mesma época um neozelandês de nome Bruce McLaren também apaixonado por carros e por corridas havia criado uma equipe em 1963 com seu nome e falecia em decorrência de um acidente testando o carro que criara.
Foram exatos dez anos (entre 1970 e 80) até os caminhos da McLaren e de Ron Dennis se cruzarem. Nesse período, Teddy Mayer assumiu o comando da McLaren no lugar do amigo Bruce e viu sua equipe ganhar dois títulos: um com Emerson Fittipaldi, em 1974, e outro com James Hunt, em 1976. Por outro lado também viu sua equipe se afundar em dívidas e foi então que Ron Dennis mecânico saiu de cena para que Ron Dennis dono de equipe surgisse.
Ao assumir a equipe manteve o nome McLaren em homenagem a Bruce. E a F-1 nunca mais foi a mesma, assim como o próprio dirigente. Nos bastidores, Ron Dennis é visto como um homem rígido, prepotente, frio e que não mede esforços para conseguir o que deseja.
Porém, nem sempre foi assim. Se analisarmos Ron Dennis por décadas veremos que a F-1 mudou o homem, tanto quanto o homem mudou a F-1. Na década de 80, a categoria era tida como romântica, na qual não se faziam muitos treinos e os pilotos conseguiam se reunir fora das pistas para jogar tênis ou golfe sem muito compromisso.
O chefe Ron Dennis teve a competência de administrar a melhor equipe da década contando com duplas de pilotos improváveis. Niki Lauda e Alain Prost disputaram de igual pra igual o campeonato de 1984 e depois correram juntos em 85, com Lauda tri-campeão e desmotivado.
Na temporada seguinte montou aquela que para muitos é a maior dupla de todos os tempos: Alain Prost e Ayrton Senna. O grande problema para o inglês foi lidar com a rivalidade entre os contratados. Naquela época, ele ainda era um homem que se preocupava não só com vitórias, mas com o piloto. Lembro que em 1986, no auge da disputa Piquet, Senna, Prost e Mansell, Ron foi até Rosberg, um também campeão do mundo que fazia dupla com Prost na equipe, para que esse, já sem chance de ser campeão novamente, permitisse que Prost tivesse à disposição nas provas finais, além do carro titular, o reserva. Não queria magoar Keke, pediu com jeito e ele aceitou.
Nos anos 90 teve que lidar com a morte do amigo Senna, que para ele sempre foi mais que um piloto. Além disso, passou pela profissionalização da Fórmula 1 e com anos magros da equipe, que perdera o motor Honda. A equipe só voltou a ser vencedora no fim da década depois de “roubar” o projetista da Williams, Adrian Newey , fazendo de Mika Hakkinen seu bi-campeão.
Uma história interessante dessa época, que consta na biografia de Senna, é que certa vez na hora de renovar o contrato com o brasileiro, ambos se viram em um impasse e Dennis sugeriu que eles disputassem no cara e coroa. Se Senna perdesse seu salário seria reduzido, mas se ganhasse teria um aumento. Ayrton ganhou e Ron rindo acertou as bases contratuais. Ainda havia espaço para a amizade.
A nova parceria com a Mercedes já trazia lucros para ambos, quando no final de 2000 uma inspeção da FIA descobriu que um dos componentes químicos do bloco do motor Mercedes tinha tendência a provocar o câncer em quem o manipulasse, sendo imediatamente proibido. Outro golpe. A McLaren passou anos sofrendo com a durabilidade de seus motores. Hakkinen abandonou a F-1 já sem motivação para corridas e a equipe passou a apostar em um novato rápido, mas com pouca experiência em monopostos, chamado Kimi Raikkonen. Para piorar, Ron Dennis teve que conviver com a era Schumacher na Ferrari e por cinco anos seguidos viu o alemão e sua maior rival levantando o caneco sem poder fazer nada.
Épocas difíceis, que tornaram Dennis uma pessoa mais fria tanto no trato com as outras equipes, bem como com os pilotos. Contratou Montoya, mesmo com esse tendo um ano de contrato com a Williams, depois o descartou e chamou Alonso, quando esse também tinha um ano vinculado com a Renault. Voltar a ganhar era o que importava, não importava se era A, B ou C.
Assim, em 2007 liberou Raikkonen, com quem tinha dois vices-campeonatos, e apostou sua ficha no espanhol bi-campeão. O que tinha tudo para ser o ano de sua redenção e de voltar às conquistas, acabou se tornando o pior de sua vida automobilística. Ao contratar Alonso resolveu investir em uma promessa inglesa na qual ele patrocinava desde sua adolescência.
Só não contava que o intrépido Hamilton fosse fazer frente para o bi-campeão e, ao contrário do que fez com Senna e Prost, não conseguiu administrar a disputa interna de seus dois pilotos. A acusação de espionagem da McLaren sobre o carro da Ferrari foi outro duro golpe. Este que mancharia não só seu nome, mas também toda a sua história na F-1. É como se tudo que tivesse feito até então fosse jogado no lixo. Dennis virou alvo e muitos pediam sua cabeça.
Outro baque, desta vez pessoal, foi o fim de seu casamento, de mais de duas décadas. No meio de tantas coisas ruins, talvez o que mais tenha doído foi o fato de ouvir um palavrão de seu pupilo, o qual foi ouvido pelo mundo inteiro. Em um momento de fúria Hamilton o ofendeu de dentro do carro, via rádio. Definitivamente aquele não era mais o mundo no qual tinha vivido com Rosberg ou com Senna. Não havia mais a palavra amigo na categoria.
2008 começou e Ron perdeu Alonso, apostou em Hamilton e foi recompensado com mais um título, o seu último.
Pronto! Já dava para sair pela porta da frente, deixar as pistas e virar uma lenda como um homem que um dia foi dono de uma das equipes mais vitoriosas da história. Nem mesmo a acusação de que mandou embora um funcionário por racismo mancha essa carreira. Ron se eterniza, assim como Frank Williams, o último garagista da F-1. Se eterniza como Enzo Ferrari, que por décadas comandou com braço de ferro a equipe do cavalinho rompante. Se eterniza como Jack Brabham, campeão de F-1, que construiu um dos carros pelo qual foi campeão.
Por fim, se eterniza como a própria Fórmula 1. Uma lenda viva que pede licença para sair de cena e entrar para os livros de história.
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Ricardo César
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Ricardo César













































